Piratas: o que há para além do imaginário?


    É complicado falar sobre os piratas, já que muitas vezes costumamos tomar mitos como se fossem reais e vice-versa. Antes de adentrar nesse assunto, quero contar um pouco sobre o meu interesse histórico nos famosos (e infames) piratas e bucaneiros que agitaram os mares caribenhos nos séculos 17 e 18.

     Sim, eu admito que, num primeiro momento, me encantei pelo ideal de liberdade implícito ou explícito na figura dos piratas, e que eu via na Jolly Roger hasteada um manifesto antiautoritário e de rebeldia irreverente. Mas a realidade é um pouco mais complexa. Vamos por partes. É fato que, durante os séculos 17 e 18 e na Era de Ouro da Pirataria (1650-1730), tínhamos ao menos duas grandes potências imperiais que dominavam os mares. Estou falando dos espanhóis e dos britânicos - embora o domínio espanhol tenha sofrido oscilações.


    Tanto o Império Espanhol quanto o Britânico usavam de métodos extremamente opressivos para consolidarem seu poderio, desde trabalho escravo e conversão religiosa forçada goela abaixo nos povos nativos (como foi o caso dos astecas há mais de um século antes do auge da pirataria) até práticas de mercantilismo abusivo (prejudicando principalmente certos setores das colônias americanas). Ou seja, acho que nem preciso dizer que os representantes da ordem e da estabilidade construíram suas vastas influências em cima da mais pura e explícita opressão. Nesse contexto, temos os piratas. Seriam eles heróis aventureiros que se recusaram a ser subjugados pelas forças imperiais? Não, longe disso. Bem longe, aliás. Mas também não eram simplesmente os "vilões" da história.

    Eu sempre evito ter uma visão simplista das coisas. Mesmo o Império Britânico, por exemplo, impulsionou certos avanços técnicos e científicos, e eu destaco aqui o inventor do cronômetro marítimo, John Harrison (1693-1776). Voltando à história da pirataria, devo dizer também que muitas das mais célebres figuras a hastearem a Jolly Roger eram, antes de se tornarem fora-da-lei, corsários (privateers). Um corsário era, basicamente, um pirata - só que com respaldo da lei. Ao invés da Marinha Britânica entrar em conflito diretamente contra galeões espanhóis, contratavam-se capitães "piratas" para que fizessem o trabalho sujo de saquear, capturar ou afundar embarcações inimigas. Ambos saíam ganhando com isso, tanto os corsários, que ficavam com boa parte do saque, quanto a Coroa. Talvez, o mais famoso corsário da história foi Sir Francis Drake (1540-1596). Reparem que ele foi condecorado até com o título de "Sir" pelos britânicos, mas para os espanhóis, ele era certamente o mais desprezível dos piratas.


    Aqui, surge uma pergunta. Foram os piratas apenas ladrões e saqueadores, sem nenhum ideal nobre de liberdade? Em certa medida, talvez. Mas há nuances. Acontece que, nos navios piratas, havia, surpreendentemente, uma organização que podemos considerar como democrática: divisão relativamente igualitária de espólios, capitão eleito por voto direto, possibilidade de se questionar as decisões do capitão, e até mesmo a figura do contramestre, que na prática servia para limitar o poder conferido ao capitão. Isso sem mencionar que, nos navios piratas, havia também uma espécie de "seguro social" bastante primitivo, que servia para garantir um valor extra àqueles que perdessem um braço, perna ou olho em batalhas (ou seja, acidentes de trabalho). É, tudo isso parece ter sido verdade. Mas essa democracia não era algo como um ideal filosófico abstrato e muito menos uma visão política idealizada, era na verdade algo bem pragmático e funcional. Feita essa ressalva, creio que concordamos que havia sim, pelo menos nos navios, espaço para algum tipo de liberdade, ainda que não houvesse um ideal iluminista por trás.


    Só que isso nos levanta outra questão: e o mito de Libertália? Não seria ele, justamente, uma prova de que os piratas tinham de fato pretensões políticas e sociais para além do simples pragmatismo? O mito de Libertália seria, então, um dos exemplos mais emblemáticos de uma sociedade pirata igualitária e pré-anarquista?

    Este é assunto para outro post.

    Autor: Nicolas Araújo Girardi   

    

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